ARTIGO:
Marcos Silva – Assistente Social, licenciado em Ciências Sociais, Geografia e História, especialista em Ciências Políticas e mestre em Desenvolvimento Socioespacial e Regional (PPDSR/UEMA).
O cenário político no Maranhão se aproxima, mais uma vez, de uma encruzilhada estratégica. Com a aproximação das definições para o próximo mandato de governador, torna-se evidente que a disputa pelo poder está em aberto. No entanto, ela ainda orbita em torno de figuras conhecidas e de heranças políticas que remontam à virada de 2014 — o ano em que o povo maranhense decidiu romper com o ciclo de domínio oligárquico representado pelo grupo Sarney.
É fundamental relembrar que, naquele momento histórico, Flávio Dino (PCdoB) venceu o candidato apoiado pela então governadora Roseana Sarney, mesmo com ela ainda no exercício do cargo, controlando a máquina pública estadual e contando com o apoio formal do PT nacional. A militância petista do Maranhão, no entanto, desafiou essa aliança artificial e decidiu apoiar, com firmeza e convicção, o projeto de mudança liderado por Dino. Esse episódio foi emblemático, pois demonstrou que a força da máquina estatal nem sempre supera a vontade popular, e que o povo do Maranhão, com consciência crítica, já deixou claro que não deseja retornar a modelos de governo centrados no poder de famílias tradicionais.
Além disso, em um país onde a política institucional enfrenta um processo contínuo de desmoralização, o apoio de prefeitos, deputados e estruturas partidárias locais não garante, por si só, vitórias eleitorais. Quando o povo se une em torno de um projeto de transformação real, não há estrutura capaz de frear sua decisão.
Carlos Brandão, o atual governador, é fruto direto daquela virada. Como vice de Flávio Dino em 2014, beneficiou-se da aliança entre o campo progressista e o lulismo, que emergia com força no estado. No entanto, o tempo e o exercício do poder impõem novas dinâmicas. Hoje, Brandão governa por meio de uma frente ampla heterogênea, sustentada mais por articulações entre forças do centro e da centro-direita do que por uma base programática vinculada à transformação social.
O governador Brandão, conhecido por seu perfil negociador, demonstrou habilidade em garantir a estabilidade institucional. No entanto, ele vem enfrentando pressões de setores conservadores que tentam direcionar seu governo para uma postura mais à direita, o que pode diluir os compromissos assumidos com os movimentos sociais e a agenda progressista que o levou ao poder. Embora este movimento seja compreensível do ponto de vista da governabilidade, ele é arriscado do ponto de vista estratégico e histórico.
Nesse contexto, o governador precisa agir com sabedoria. A aliança firmada em 2014 entre forças democráticas, movimentos sociais, o campo progressista e, atualmente, o lulismo, não foi apenas uma construção eleitoral — foi um pacto de reconstrução política e transformação social. Preservar esse pacto é essencial para que o Maranhão continue avançando.
É importante lembrar que, em 2022, a campanha de Brandão foi liderada por Flávio Dino, que assumiu o protagonismo durante o afastamento do então candidato por questões de saúde. Ao seu lado, Felipe Camarão — hoje vice-governador e uma das principais figuras políticas do PT no estado — desempenhou um papel decisivo na conquista da vitória.
No entanto, ao tentar consolidar o chamado “centrão maranhense” para neutralizar a extrema-direita bolsonarista representada por Laércio Bonfim, Brandão tem se aproximado de setores antilulistas e conservadores, o que acende um sinal de alerta. Romper com o campo progressista e com o presidente Lula significaria não apenas um isolamento político, mas também a desmobilização da base popular que apoia o governo estadual.
E isso seria um grave erro. O Maranhão é um dos estados mais beneficiados pelo novo PAC, com cerca de R$ 100 bilhões em investimentos públicos e privados mobilizados pelo governo federal. Essa conquista é resultado direto da relação histórica entre o povo maranhense e o presidente Lula, do protagonismo das lideranças locais no governo federal e do reconhecimento do estado como prioridade no projeto nacional de reconstrução.
Romper com esse campo político compromete não apenas a governabilidade de Brandão, mas também os rumos do desenvolvimento estadual. O gesto político mais inteligente, portanto, é pacificar as tensões com os segmentos dinistas, reafirmar o compromisso com a agenda democrática e social, e retomar o diálogo com o PT, os movimentos sociais e a militância que sustentou sua eleição.
O PT, por sua vez, tem uma responsabilidade histórica nesse processo. Não pode agir como coadjuvante, mas deve se posicionar como protagonista na construção de uma frente ampla, democrática e enraizada no povo. Essa tarefa deve ser conduzida por Felipe Camarão, vice-governador legitimado nas urnas, que possui atributos políticos, experiência em gestão e capacidade de diálogo. Camarão pode ser o elo entre Brandão, Dino e os diversos setores sociais e partidários que compõem a coalizão vitoriosa de 2014.
Mais do que antecipar nomes ou disputas internas, é hora de discutir um projeto de Estado que esteja comprometido com a justiça social, a sustentabilidade ambiental, a valorização dos servidores públicos e a soberania popular. O Maranhão precisa continuar sendo um território de esperança e uma referência nacional no Brasil de Lula.
Nesse contexto, outras movimentações surgem. Fala-se, por exemplo, de uma possível candidatura de Eduardo Braide, prefeito de São Luís. No entanto, Braide foi eleito para cumprir um mandato até 2028, e romper esse compromisso comprometeria sua imagem política. Se ele mantiver a estabilidade administrativa da capital, poderá ser uma alternativa futura, mas somente para 2030, e não agora.
Outra especulação diz respeito à candidatura de Orleans Brandão, sobrinho do governador, pelo MDB. O partido, que historicamente teve um papel central no Maranhão, tenta se reposicionar como uma força moderada. Contudo, a memória política da população ainda carrega a derrota de Edinho Lobão em 2014, quando foi apoiado por Roseana Sarney, que controlava totalmente a máquina estatal. A lição permanece válida: estrutura não vence eleição sem apoio popular, sem um projeto e sem mobilização.
Orleans pode até representar uma tentativa de continuidade do ciclo atual, mas, sem densidade eleitoral, raízes populares e o respaldo da aliança nacional, sua candidatura tende a ser frágil e desidratada. O risco é repetir 2014 em nova roupagem, com os mesmos erros e o mesmo desfecho.
Considerações Finais
O processo eleitoral de 2026 no Maranhão ainda está em aberto. Nenhuma candidatura está consolidada. Os bastidores estão em movimento, e isso faz parte da vitalidade democrática. No entanto, é preciso ter clareza: o poder não é um fim em si mesmo, mas um instrumento a serviço da transformação social e da dignidade do povo.
As vitórias de Flávio Dino em 2014 e de Carlos Brandão em 2022 foram resultado de escuta, articulação generosa e compromisso com aqueles que mais precisam. A sucessão de 2026 exige a mesma fórmula: unidade, responsabilidade histórica e visão de futuro.
É fundamental que Brandão mantenha-se fiel ao campo político que o elegeu. Caberá ao PT e a Felipe Camarão liderarem, com firmeza e generosidade, a recomposição do pacto de 2014.
Dessa forma, o Maranhão continuará sendo um exemplo de resistência, transformação e esperança para o Brasil.
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