Massacre de Eldorado dos Carajás completa 23 anos de impunidade

Uma série de protestos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocorre em todo o país desde o dia 10 de abril até dia 17, quando se completam 23 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, em que 21 trabalhadores rurais foram assassinados pela força pública.
21 trabalhadores rurais sem-terra foram assassinado em Eldorado dos Carajás em 17 de abril de 1996 

Foto: Antônio Scorza/AFP


A cada ano, a Jornada Nacional de Lutas pela Reforma Agrária é realizada como forma de rememorar o crime e exigir políticas públicas para o campo brasileiro. Márcio Santos, da coordenação nacional do MST, destaca que esse ano o contexto é outro.

“Pela primeira vez após o período de redemocratização, a gente faz uma jornada de lutas em um ambiente de crise democrática, de ameaça à democracia, de pressão, a partir de um estado truculento, em cima dos movimentos sociais, no sentido de tentar destituir o direito legítimo de manifestação”.

Nesta segunda-feira (15), o presidente da República Jair Bolsonaro fez uma publicação no Twitter, na qual comemorou o fato de o MST ter realizado “só uma ocupação de terra” durante os três primeiros meses de governo. Para Santos, Bolsonaro comemora antes da hora, já que o MST “está preparado para a luta”.

“Nós não ficamos desafiando o governo. É o governo que nos desafia. Nós não precisamos ficar desafiando o governo, provando se somos corajosos ou não. Mas uma coisa pode ter certeza: com o MST não tem covardia. A gente faz a luta a partir dos elementos apresentados pela conjuntura. E vamos fazer muita luta nesses quatro anos de governo Bolsonaro”.

Segundo Santos, embora o Massacre de Eldorado dos Carajás tenha sido emblemático em relação à violência contra os trabalhadores do campo, a situação nunca deixou de ser um dos principais problemas enfrentados pelos trabalhadores rurais no Brasil.

“Possivelmente o 17 de abril vai ficar, ao longo da história, como uma data referência, quando o Estado sujou sua mão de sangue para defender os interesses de uma elite extremamente atrasada do campo brasileiro. Mas, para além do 17 de abril, o campo brasileiro tem uma característica muito forte de violência, que vem desde o período da escravidão, das oligarquias agrárias que dão as cartas no interior do Brasil.

Além de denunciar a paralisação das políticas de reforma agrária do governo Bolsonaro, Santos alerta para as consequências dos constantes ataques do presidente da República ao movimento social camponês.

“Ao taxar o MST como ilegítimo, ele [Jair Bolsonaro] abre brechas, abre precedentes para que grupos organizados e milícias rurais ataquem acampamentos, assentamentos, comunidades quilombolas, indígenas, promovendo uma violência sistemática no campo brasileiro”.

Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2017, foram 70 assassinatos no campo brasileiro, o número mais alto desde 2003. O estado com o maior número de vítimas foi o Pará, onde ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás.

Juventude se reúne no local do massacre

Desde o dia 10 de abril, cerca de 300 jovens sem-terra se reúnem na “curva do S”, local exato onde ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, para um acampamento pedagógico da juventude.

Aline Silva, porta-voz do movimento, explica que o acampamento surgiu quando se completou dez anos do massacre, como forma de organizar a juventude camponesa e homenagear os lutadores caídos. A atividade está em sua 14ª edição e acontece até dia 17.

“Esse acampamento surgiu no ano de 2006, em memória dos nossos mortos, trabalhadores que foram massacrados no dia 17 de abril de 1996, e aqui também é uma forma de resistência, para dizer que não nos calaremos diante da atual conjuntura, frente a toda forma de violência no campo contra os nossos trabalhadores e trabalhadoras rurais”.

Leandro Diniz, militante do MST no estado do Maranhão, participa do encontro e afirma que, ao contrário do que propaga o governo de Jair Bolsonaro, a juventude sem-terra segue com disposição para enfrentar os ataques contra o povo trabalhador.

“Esse é um momento de ir para cima, de denunciar o descaso desse governo, as declarações que ele [Jair Bolsonaro] tem dado em relação aos sem-terra, dizer que não vamos deixar barato, muito pelo contrário, nós reafirmamos a disposição de continuar ocupando os latifúndios e essa juventude precisa estar organizada para dar continuidade à luta pela terra”.

Nos debates, diversas pautas próprias da juventude, como o trabalho e renda; o acesso a políticas públicas para os territórios de reforma agrária, permitindo assim que os jovens permaneçam no campo; a denúncia do genocídio da juventude negra e a violência LBGTfóbica; além da defesa da soberania nacional e da educação no campo que, segundo Diniz, é duramente atacada pelo atual governo.

“Com essa declaração do Bolsonaro sobre as escolas do MST, em alguns municípios, eles [as autoridades] têm se sentido encorajados, se sentiram provocados a fechar escolas no campo. Então, o que a gente vê nesse momento na sociedade é um desmonte contra a educação nos assentamentos, nas áreas rurais”.



Fonte: Brasil de Fato

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